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Páginas de estórias e da História

Um blog sobre tudo e mais alguma coisa!

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Cinema: 74.º Festival de Veneza

Setembro 09, 2017

Pedro Rodrigues

Dez filmes para não esquecer Veneza

Mektoub, My Love, de Abdellatif Kechiche

Polémica pronta a consumir, eis o que se espera para a temporada. É um "macho", um realizador que "objectifica" as mulheres? O "escândalo" é Kechiche não ter medo de si próprio - isso também fez de Mektoub, My Love o melhor filme da competição. Eis o que nos espera: êxtase, saciedade e saturação, sequências de caça à luz e à carne. Verão de 1994, Amin, fotógrafo, vem da cinzenta Paris até ao Mediterrâneo à procura das cores. Sexo e comida, discoteca e ventura bucólica, convivência de classes, raparigas e rapazes: o último sinal do século XX, segundo o realizador.

 

First Reformed, de Paul Schrader

Ethan Hawke, reverendo silencioso, grácil e assustador, veste colete de explosivos. O filme ameaça com o thriller - e toda a gente se lembrou do Taxi Driver, que Schrader escreveu para Scorsese. Mas tudo se passa na intimidade da fé, das palavras, dos diálogos, das dúvidas. A fé é experiência física também. E a harmonia dos corpos e gestos no espaço, a compostura, é das coisas mais vigorosas de First Reformed. Podia ser um thriller, é uma liturgia.

 

Jim & Andy: The Great Beyond. The story of Jim Carrey & Andy Kaufman with a very special, contractually obligated mention of Tony Clifton, de Chris Smith

Quando Jim Carrey desapareceu, na rodagem de Homem na Lua, de Milos Forman, e foi ocupado pelo comediante Andy Kaufman (1949-1984). O cinema é um espaço de euforia psicótica, convida aos desdobramentos. Este é o making of disso, com imagens que têm vinte anos e que ninguém sabia o que fazer com elas. É, sobretudo, um intenso retrato de actor - que diz ter chegado à beatitude do nada, depois de ter descarnado todas as camadas da sua identidade.

 

Angels Wear White, de Vivian Qu

Vivian Qu sente-se responsável por um ponto de vista sobre a China contemporânea, território devassado. Coloca-se do lado de Mia, uma adolescente que tem de fazer pela vida numa cidade de praia que se construiu na diluição de fronteiras entre moralidade e imoralidade (como num western em que todos abdicaram de uma parte da sua humanidade). Um filme delicado sobre a humilhação e a brutalidade.

 

The Taste of Rice Flower, de Pengfei

Com elegante ironia, o argumentista de Stray Dogs, de Tsai Ming-liang, faz o burlesco aparecer no horizonte e organiza miniaturas e a seguir desiquilibra-as. É o bailado do progresso, a sua desordem, num mundo rural e místico. Pengfei não escolhe campos. E isso é que alimenta um sentimento de irremediável. O filme adia sempre a redenção, nunca (se) resolvendo.

 

Nico, 1988, de Susanna Nicchiarelli

Um fragmento da vida de Christa Päffgen, dita Nico (1938-1988), os últimos concertos, quando andou em tour pela Europa do Leste, com a sua antinostalgia perante o "mito" Velvet Underground, o desconforto perante as etiquetas de "musa" ou de femme fatale. E quando tentava recuperar a relação com o filho Ari. Que biopic ainda pode ser um biopic? Uma coisa assim: tal como Nico, que faça resistência aos clichés.

 

Jusqu'a la Garde, de Xavier Legrand

Um filme sobre a violência doméstica que dá um salto sobre o "tema", afasta o filme social, e aterra no thriller. Um filme sobre o medo, o medo das vítimas mas também o medo do agressor (Denis Ménochet interpreta um pai violento, que luta para manter a guarda dos filhos, e que é susceptível de desencadear ternura no espectador). Se a família é um espaço de violência, os planos e as personagens de Jusqu'a la Garde só podem comunicar entre si com a secura dos estilhaços.

 

Our souls at Night, de Ritesh Batra

O reencontro entre Jane Fonda e Robert Redford, quarto filme em 50 anos. Uma história de amor entre "maduros"? Sim. Mas Our souls at Night, em vez de entrar a fundo nas convenções, recua passos e fica a olhar para Jane e Robert, para a forma como andam, os gestos, atento à mecânica e à fragilidade dos corpos. Em surdina, um documento com as últimas imagens juntas daquelas que foram presenças decisivas do cinema e da vida cultural, social e política da América.

 

Piazza Vitorio, de Abel Ferrara

Abel Ferrara é um imigrante: vive em Roma. Utiliza isso como elo para chegar aos imigrantes que tomaram conta de uma das mais icónicas praças da cidade - onde também vivem o actor americano Willem Dafoe e o cineasta italiano Matteo Garrone, que são participantes activos, com os africanos e os asiáticos nos mercados, nas lojas, nas ruas, de uma nova cidade. Ferrara não é jornalista, como diz. É cineasta. O seu olhar está encantado com as possibilidades de caos. Na falta do rigor da análise e da profundidade histórica, sobra o calor da empatia - que já é uma parte da verdade.

 

Ammore e Malavita, de Antonio e Marco Manetti

O orgulho e a ironia por Nápoles, pelos seus clichés, a sua violência e misérias, pelo seu sangue, pela sua densidade. Rock, r&b e rap, canções de género azeiteiro: uma representação teatral popular, misto de canto e fala que exibe as emoções do amor, da honra, da traição, a que os irmãos Manetti dão forma de filme musical. Não é La La Land, é melhor do que La La Land. Até os mortos cantam. Depois de Caro Diario (Querido Diário), de Moretti, assim se confirma que Flashdance tem importância fundadora para o cinema italiano...

 

Textos de Vasco Câmara, em Veneza, para o jornal "PÚBLICO" de 9 de Setembro de 2017.

Semana de Lazer

Setembro 09, 2017

Pedro Rodrigues

Arte urbana, gulal, fotografia, livros e estátuas vivas. Assim são os traços da semana!

A arte de "escavar" muros e fachadas com retratos denuncia o português Vhils, nascido Alexandre Farto, que começou por pintar paredes e comboios com grafitti e é agora reconhecido nos quatro cantos do mundo. O artista é um dos convidados da segunda edição do Estau, o festival com curadoria da Mistaker que durante nove dias se instala em Estarreja para colocar a arte urbana em diálogo com o património e com a natureza, e transformar a cidade numa verdadeira galeria ao ar livre. No programa, que inclui ainda peças assinadas por Akacorleone, Ana Maria, Halfstudio, Manolo Mesa, Mohammed L'Gracham e The Empty Belly, há histórias pintadas em murais, instalações, conversas, residências artísticas, oficinas, música, dança, visitas guiadas e passeios no tradicional barco moliceiro, entre outras iniciativas. Ao vivo e a cores, para parar e olhar... até 17 de Setembro, em Estarreja.

 

Inspirado no festival hindu que celebra a transição do Inverno para a Primavera com uma explosão de cores, o Happy Holi propõe uma festa de música e dança em que milhares de pessoas se juntam e criam uma colorida paleta humana. A cada 45 minutos, os participantes são pintados com uma chuva de gulal (pó colorido), a chamada color blast. Na edição que assinala os cinco anos do festival em Portugal, há ainda espaço para bancas de comida e bebida. E, na véspera, para o Happy Holi Kids, uma versãoo da festa, estreada no ano passado, pensada e adaptada aos mais pequenos (dos 3 aos 12 anos). O dress code já é conhecido: t-shirts ou tops de cor branca, para que as cores tenham tela perfeita para assentarem... 10 de Setembro no Estádio Universitário de Lisboa, das 14h00 às 22h00 (Happy Holi Kids no dia 9, entre as 15h00 e as 19h00). Bilhetes a 15€ (inclui dois sacos de pó colorido).

 

No Porto estreia-se um novo festival inteiramente dedicado à fotografia. Das maratonas fotográficas pela cidade aos debates, passando pela exposição Retratos sem Medo (patente até 10 de Novembro, onde pode ver-se A light for tarnished-souls, de Brooke Shaden), o programa do Porto Photo Fest foca-se no encontro entre aspirantes e profissionais da área, para "potenciar a aprendizagem para todos os níveis e disciplinas de fotografia". O protagonismo desta primeira edição vai para nomes como John Stanmeyer, David Nightingale, Pedro do Canto Brum, Sara Lando, Penny de Los Santos ou Cradoc Bagshaw, que orientam masterclassesworkshops... Centro Português de Fotografia, de 11 a 17 de Setembro. Grátis (exposição); 25€ a 2000€ (workshopsmasterclasses).

 

Os padrões da calçada portuguesa, o sistema macadame, o trabalho em pedra e cerâmica. O convite é para olhar para o chão. O que pisamos e o que pisámos em Lisboa ao longo dos séculos, dentro e fora de portas. A exposição Debaixo dos Nossos Pés - Pavimentos Históricos de Lisboa, comissariada por Lídia Fernandes, Jacinta Bugalhão e Paulo Almeida Fernandes, presta tributo ao revestimento como elemento arquitectónico. Podem ser observados tipos de pavimentos usados para diferentes propósitos e locais, das soluções tradicionais às técnicas mais inovadoras (à época). O objectivo é mostrar como o chão está ligado à vida da cidade, à sua evolução e até aos comportamentos dos seus habitantes... Até 24 de Setembro no Museu de Lisboa - Torreão Poente. De terça a domingo, das 10h00 às 18h00. Bilhetes a 3€.

 

Livros, mas também debates programados por José Eduardo Agualusa, sessões de spoken word comissariadas por Anabela Mota Ribeiro, jazz, cinema, teatro, exposições e actividades para os mais novos. O programa cultural é extenso e extravasa o carácter comercial da Feira do Livro do Porto, que conta este ano com 130 expositores instalados na Avenida das Tílias do Palácio de Cristal. Muitas das iniciativas estão relacionadas ou são inspiradas por Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), a escritora homenageada nesta edição - a quarta organizada integralmente pela autarquia. Dica para a petizada: para dia 13, às 16h00, está marcado um Jogo da Glória gigante a partir da vida e obra de Sophia... Até 17 de Setembro nos jardins do Palácio de Cristal.

 

Foi espaço de lazer e residência oficial da família real no século XVIII. Destaca-se pelos traços arquitectónicos ao estilo barroco, rococó e neoclássico. Classificado como Monumento Nacional desde 1910, o Palácio Nacional de Queluz volta a receber no seu largo a Feira Setecentista, em que artesãos e comerciantes recriam ofícios do período de apogeu do palácio. Com animação oferecida pela Câmara dos Ofícios, por ali passam marqueses e marialvas, com os seus trajes e maneirismos, música, dança, poesia, malabarismos e iguarias da época, para dar cheiro e sabor a esta viagem ao Século das Luzes... De 14 a 17 de Setembro no Largo do Palácio Nacional de Queluz.

 

As Estátuas Vivas voltam a tomar conta da cidade dos Templários, desta vez sob o tema Lendas e Tradições de Portugal. Durante três dias, mais de 30 performers oriundos de Portugal, Espanha, Reino Unido, Bélgica e Alemanha compõem quadros que evocam A Moura Encantada, a Lenda das Amendoeiras em Flor, a Lenda do Galo de Barcelos ou a Lenda da Sopa de Pedra, entre outras. O festival não se limita às histórias populares e religiosas. Convida também personagens de outros tempos e culturas, como Mozart, Napoleão, Vasco Santana, John Lennon ou Isolda. E se aos artistas é exigida a imobilidade, ao público pede-se o aplauso deslumbrado e a votação no quadro favorito... De 15 a 17 de Setembro na Rua Marquês de Pombal, Rua Serpa Pinto, Praça da República e Parque do Mouchão, em Tomar.

 

Textos de Cláudia Alpendre Marques para o suplemento "Fugas" do jornal "PÚBLICO".

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