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Páginas de estórias e da História

Um blog sobre tudo e mais alguma coisa!

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Cinema: 74.º Festival de Veneza

Setembro 06, 2017

Pedro Rodrigues

Morrissey cantava, em I know it's over, "Oh mother, I can feel the soil falling over my head..." Em Mother!, de Darren Aronofsky, o chão e as paredes estão vivos e sangram, e tudo cai, mas o espectador não tem espaço para trautear uma estrofe que seja, se quisesse personalizar a sua participação. Não participa. Tudo jorra sobre ele, as questões ambientais, o sexo e a maternidade, o céu e o inferno, a casa protectora e o exterior ameaçador. Até a Bíblia cai sobre Jennifer Lawrence.

Sim, Jennifer: ela aqui é o espectador. Quer dizer, o espectador nada é a não ser reacções, sustos e gritos, claustrofobia e atordoamento. Jennifer Lawrence, que nem tem nome, é apenas "mãe" (Javier Bardem é o seu "homem"), também não é personagem, é uma série de reacções, espasmos. Estamos reduzidos a isso, como espectadores, no filme que Aronofsky trouxe ao concurso de Veneza, onde em 2008 recebeu o Leão de Ouro por O Wrestler: contemplamo-nos, enormes, ensurdecedores, no ecrã, é o sabor da nossa condição de marionetas.

A "mãe" e o seu "homem". Ela reequilibra-lhe a existência, depois de um trauma do passado. Ele é escritor, mas o texto não lhe sai. Ela trabalha sobre o décor, constrói o paraíso para ele. Até que bate à porta o casal Ed Harris e Michelle Pfeiffer. Nem sabe Jennifer o que lhe vai acontecer (Javier Bardem é tão vaidoso e ambíguo que parece ganhar alguma coisa com a invasão, até a quer).

Pfeiffer, que tem uma postura de gárgula, tenta acordar Jennifer para a infertilidade da sua existência. De facto, Jennifer consegue que Javier a engravide. O que acontece a partir daí, da invasão e da gravidez, então é mesmo indescritível. Não pela originalidade dos acontecimentos, mas pela sua quantidade. Derrota qualquer possibilidade descritiva. Aronofsky conta que durou dez anos a encontrar a forma final de O Cisne Negro (2010), ao passo que Mother! foi jorrado, verbo dele, em cinco dias. Saíram-lhe a raiva, o medo, as preocupações, está ali, naquela casa de Jennifer e Javier, toda a "humanidade" - é o que Aronofsky diz que vê na sala de O Anjo Exterminador (Luis Bunuel, 1962), e nem sequer é mal visto. Mother! sente-se como um fluxo que está a ser expelido, de facto. E ali estão os clichés e as referências por catálogo, de A Semente do Diabo (Roman Polanski, 1968) - Jennifer grávida como Mia Farrow, e, tal como ela, começa por ser traída, desde logo, pelo marido, que era John Cassavetes - a Shining (Stanley Kubrick, 1980), em que a voracidade e o egoísmo do criador convocavam todos os fantasmas.

Podemos ver Mother! como filme de uma grande "lata": ser sobretudo um sismógrafo, um espelho das reacções do espectador, e marimbar-se para as personagens e aguentar tudo com vestígios, apenas, delas. Há mesmo uma energia autodestrutiva por ali, que aqui, na competição de Veneza, até tem sabor a machadada no contingente "cinema de género" que fez parte da competição (de Alexander Payne a George Clooney, passando por Guillermo del Toro). Mas, para isto ser perfeito, Aronofsky devia ter tido critério naquilo que deixou jorrar, e não apenas achar que com a incontinência derrotava qualquer oposição. E devia ter uma ideia mais elevada do espectador.

A propósito: não vamos menosprezar o facto de os delírios poderem ser uma autorizada continuação dos filmes. Que tal este: Jennifer é o espectador, ela revolta-se no final contra a tirania que impuseram à marioneta, e o espectador faz também Mother! desaparecer em chamas para um todo sempre. Na realidade, a vida não é como nos filmes: foi metade, metade; houve palmas e apupos.

 

Texto de Vasco Câmara, em Veneza, para o "PÚBLICO" de 6 de Setembro de 2017.

Cinema: 74.º Festival de Veneza

Setembro 06, 2017

Pedro Rodrigues

À procura de Jim Carrey, desaparecido em Veneza.

Jim Carrey descobriu que não existe. "It's such a fucking relief.Homem na Lua (1999), de Milos Forman, filme em que era ocupado pela presença do cómico Andy Kaufman (1949-1984), foi a descoberta da verdade. Lançou Carrey para o espaço, ao som de Starman, de David Bowie, tirou-lhe as âncoras de identidade. Desde pequeno, quando se fechava no quarto a representar personagens para a parede, que o canadiano suspeitava de que eram as personagens que o interpretavam a ele.

Num estúdio de Hollywood, em 1999, Jim tinha sido contratado pelo realizador Milos Forman (que inicialmente não o queria, o actor teve de empregar o seu voluntarismo, inundando o cineasta de testes de casting) para o biopic sobre Andy Kaufman, figura misteriosa da televisão e do show americano. Jim sempre acreditou numa comunicação secreta entre ele e Andy, como a comunicação com os golfinhos, só ele poderia fazer o filme. Em comum havia, para além da solidão no quarto, uma coisa de pais por resolver: mostrar-lhes que se vale alguma coisa, não ter conseguido dizer-lhes que eles valiam muita coisa. Numa era em que o espectáculo aprimorava rotinas de perfeição, o doce Andy abriu um buraco negro, punha-se a fazer playback com um LP ou luta livre, e a desaparecer num alter ego desagradável chamado Tony Clifton. O próprio Andy desapareceria precocemente, vítima de cancro de pulmão. Até que regressou ao estúdio de Hollywood nesse ano de 1999. Aí foi Jim Carrey que desapareceu.

Houve testemunhos disso, houve uma câmara que captou esse encontro com o nada: como alternativa ao EPK, o press kit electrónico com que os filmes se promovem, formatando as entrevistas através da rotina, Carrey teve a ideia de entregar câmaras a Lynne Margulies e Bob Zmuda, que tinham sido, respectivamente, a namorada e o cúmplice e argumentista de Kaufman. Eles que o seguissem até à Lua. Seguiram. Mas a Universal achou que o que ficou disso não poderia servir como making of de Homem na Lua, faria da estrela um "asshole". Esse material foi fechado nos cofres de Carrey há duas décadas, até que o actor decidiu entregá-lo a um argumentista e a um realizador, Chris Smith. Jim & Andy: The Story of Jim Carrey & Andy Kaufman with a very special, contractually obligated mention of Tony Clifton, exibido fora de concurso no Festival de Veneza, é, segundo alguns (como Carrey), o verdadeiro filme, porque "o verdadeiro Homem na Lua passou-se atrás das câmaras" - há então uma hipótese de mash up à espera de ser concretizada. É um documentário sobre o cinema como lugar de euforia e energia psicóticas, de desdobramentos e reencarnações - Jim Carrey, Andy Kaufman, Lynn Margulies, Bob Zmuda, Milos Forman, Chris Smith... de todos eles é este filme, documento de como "fucked up this business is". Bom resumo: "How fucked up this business is." Sim, quando estava em negociações com Michel Gondry para O Despertar da Mente (2004), em que interpretaria um homem que apaga a memória de uma relação falhada, Carrey passava por uma fase emocional complicada da sua vida. Mas Gondry via-o "tão lindo, tão lindo" nessa tristeza que lhe pediu que não melhorasse do sofrimento, que o aguentasse por mais um ano, até à rodagem.

 

Jim Carrey diz, hoje, que "quem estava em controlo" durante Homem na Lua era Andy Kaufman; não era ele, Jim, a tomas as decisões, era "o espírito aventureiro" de Andy. Houve murros, cuspidelas, melodrama. Milos Forman pedia-lhe - a Andy, não a Jim - que lhe deixasse por favor continuar o filme, tinha um para fazer. A família de Andy veio visitar o "filho". A filha de Andy, que foi adoptada, que nunca se relacionou com o pai, que nunca se encontrou ou sequer falou com ele, visitou-"o" no set.

Jim não se encontrava em lugar algum, não era identificado. Notam-se os rostos de espanto de gente experimentada como Danny DeVito, Paul Giamatti ou Judd Hirsch. Só havia Andy Kaufman - ou o seu alter ego Tony Clifton, que aparecia para confundir e insultar. Entrava assim logo pela manhã na limousine em direcção ao estúdio, entravam assim, às vezes Andy, às vezes Tony, consoante o plano de rodagem - conta o motorista. Presume-se que acordava(m) assim. Quando Ron Howard começou a fazer os contactos preliminares para o seu Grinch (2000) decorriam ainda as rodagens de Homem na Lua e o realizador teve de falar ao telefone com Andy Kaufman. É um bom homem, Ron Howard, alinhou.

Chegamos ao fim de Jim & Andy: The Great Beyound..., e, no último plano, Carrey, que ao longo do filme vai comentando o que ficou para trás, esse processo de, através da improvisação, descascar tudo e encontrar nada, diz-se sereno na sua não ambição - coisa estranha de se afirmar na América, comenta -, porque quando teve tudi o que poderia ter sonhado não foi feliz. Carrey esteve em Veneza a apresentar o filme. Para ele há uma necessidade de validação que todo o sucesso do mundo talvez ainda não tenha sossegado. Espera que Jim & Andy: The Great Beyound..., filme que deixa sentir um clima testamentário, seja experimentado como uma "meditação" sobre si próprio, sobre a sua carreira. Que mostre que não tem uma colecção de caretas, que fez cada filme, "cada Doidos à Solta", por uma razão (por exemplo, esse de 1994 fê-lo para mostrar que "a inocência" pode triunfar). Que cada filme correspondeu "a um momento espiritual" da sua vida. Cada "careta" a um momento de "honestidade" - num mundo onde toda a gente tem várias caras, diz, exibi-las é subversivo. "Eu não quis fazer parte de Hollywood, eu quis destruí-la."

Quem comenta o filme, e aparece frondosamente barbudo na beatitude do nada, ameaçando, quiçá, regressar como Jesus Cristo, não foi a mesma pessoa que apareceu em Veneza. Em Veneza, sem barba, a falar sobre a "comunicação psíquica" com Jerry Lewis na infância ("Eu pensava 'está a dar o Jerry', ligava a televisão, e lá estava ele"), sobre o "fenomenal comediante" que foi o Marlon Brando de Reflexos num Olho Dourado (John Huston, 1967), era um homem mais parecido com Ace Ventura. "How fucked up this business is.

 

Texto de Vasco Câmara, em Veneza, para o "PÚBLICO" de 6 de Setembro de 2017

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