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Páginas de estórias e da História

Um blog sobre tudo e mais alguma coisa!

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Cinema: 74.º Festival de Veneza

Setembro 05, 2017

Pedro Rodrigues

Frances McDormand tem a bacia de John Wayne

Frances McDormand não se importa, rendeu-se a uma inevitabilidade: na sua pedra tumular vai rezar que foi a Marge Gunderson de Fargo (1966), filme de Joel e Ethan Coen. Mas o entusiasmo que está a desencadear Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, de Martin McDonagh, prenuncia que terá de levar para a tumba também Mildred Hayes - o entusiasmo dá-lhe até já outro Óscar.

Começamos por agradecer a Frances ela ter libertado o Clint Eastwood que existe nela. Ela corrige: John Wayne. No filme não se vê, explica, porque ficaram fora da montagem, mas havia cenas em que imitava o andar dele, o peculiar movimento que se desprendia da sua bacia. Foi num ícone masculino que se inspirou para a personagem de uma mãe, numa pequena cidade americana, que empurra a máquina policial e judicial, através da compra de provocatório espaço publicitário, para que descubra quem violou e matou a filha. Isto vai desencadear episódios sanguinolentos como nos filmes de Tarantino - ou dos irmãos Coen...

Clint ou Wayne, tanto faz. O que interessa é o aparecimento do cowboy na personagem de Frances, algo que o realizador diz que só ela consegue fazer - além do mais, sublinha, é actriz que não cortou com a sua linhagem operária, e ele, Martin McDonagh, dramaturgo, argumentista, realizador (Em Bruges, 2008; Sete Psicopatas, 2012), escreveu a pensar nisso, a pensar nela.

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (competição) joga por um lado com o vigilantismo, com a vingança; por outro, com a redenção, escrevendo para as personagens um arco como o de John Wayne, que começava como racista n'A Desaparecida (John Ford, 1956). Martin McDonagh escreveu para gente que conhecia, Frances, Woody Harrelson e Sam Rockwell, e "o truque foi...", diz ele, e depois emenda: "Não foi truque..." Mas sim, a boca fugiu-lhe para a verdade, é um truque, dominado, apurado, mas um truque de argumentista, esse de apresentar as personagens todas como racistas, violentas, e depois, como coreografia desenhada, começar a mostrar delas, lá para metade do filme, um outro lado, suspendendo finalmente tudo na "humanidade" reencontrada. O espectador, sossegado, sai cheio de divertimento e sem culpa.

Os actores são virtuosos, o argumento dá-lhes palavras e situações que eles valorizam, mas o jogo impede que desça sobre as personagens qualquer dimensão trágica, autodestrutiva - como acontece no cinema de Tarantino, por exemplo, de quem o filme se aproveita mas com quem nunca estará à altura de ser comparado. E impede que o divertimento seja a epifania cinematográfica que por aqui se grita. Esta viagem é sempre uma descoberta decidida do exterior pelos desígnios do cineasta-argumentista. Nunca a sentimos como (des)governada por infernais (e humanas) personagens.

Há algo que se perde, também, em Ex-Libris - The New York Public Library, o novo filme de Frederick Wiseman (pela primeira vez em concurso em Veneza). Nos três últimos filmes, At Berkeley (2013), National Gallery (2014) e In Jackson Heights (2015), há um olhar sobre instituições, respectivamente uma universidade e um museu, e sobre um bairro (Queens, Nova Iorque), que, se disfarçava o afecto, era permeável a ele. Fundamentalmente. colocavam-se em relação os filmes e as instituições - senão com figuras ou personagens, pelo menos com os movimentos e gestos de um grupo, de uma comunidade. A Biblioteca Pública de Nova Iorque, com as suas 92 divisões espalhadas por Manhattan, Bronx e Staten Island, não é apenas, nem fundamentalmente, um espaço de livros. É um espaço de saber e de acesso ao mundo, ali se concretizam a democracia e os seus valores fundamentais. Por isso surpreende esta espécie de desinteresse de Wiseman por uma dinâmica, pelo seu movimento. Ex-Libris - The New York Public Library é dos mais monolíticos dos seus filmes. O mais institucional do cineasta das instituições.

 

Texto de Vasco Câmara, em Veneza, para o "PÚBLICO" de 5 de Setembro de 2017.

MOTELX, um festival para pensar o género

Setembro 05, 2017

Pedro Rodrigues

Ofensivo, marginal, provocador. Chame-se o que quiser ao cinema de terror, o facto é que ele veio para ficar e não vai a lado nenhum. Prova disso é a popularidade constante (e crescente) do MOTELX, que chega este ano à 11.ª edição, a decorrer até ao próximo domingo nas salas do São Jorge e do Tivoli, com a presença entre nós dos homenageados Roger Corman (para uma conversa já amanhã às 19h00, no São Jorge) e Alejandro Jodorowsky (São Jorge, sábado, às 17h30). E, como sempre, é um festival que não se limita a fazer um panorama da produção actual do género, tanto ao nível americano e asiático (na secção Serviço de Quarto, que ocupa o grosso da programação) como ao nível europeu (com oito longas-metragens de produção europeia seleccionadas para a secção competitiva). O MOTELX quer também contribuir para diversificar e pensar o género, quer através da competição de curtas de terror portuguesas que mantém desde 2009 ou das sessões especiais, conversas e debates que promove. Este ano, haverá uma masterclass do colectivo White Noise sobre o cinema de terror da América Latina (São Jorge, domingo, às 16h00), e outra sobre o cinema transgressivo de autor de Jean Rollin e Walerian Borowczyk, pelos académicos Daniel Bird e Kier-La Janisse (São Jorge, sábado, às 16h00), a par do estudo de Alexandre O. Philippe sobre a "cena do chuveiro" de Psico, de Hitchcock, 78/52 (São Jorge, sábado, às 14h50). Haverá ainda painéis sobre caracterização, escrita e escultura, workshops dedicados aos mais novos e a continuação da procura dos traços do filme de género na história do cinema português - este ano através da exibição de Excitação, realizado pelo português Jean Garrett no Brasil em 1976 (São Jorge, dia 8, 19h25) e das co-produções luso-espanholas Crime de Amor de Rafael Moreno Alba (1971, São Jorge, sábado, 16h55) e Espírita de Augusto Fernando (1976, São Jorge, domingo, 19h00). Tudo razões para ir à descoberta da programação no site oficial do MOTELX ou nas salas do São Jorge e do Tivoli.

 

Texto de Jorge Mourinha para o jornal "PÚBLICO" de 5 de Setembro de 2017.

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