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Páginas de estórias e da História

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Cinema: 74.º Festival de Veneza

Setembro 04, 2017

Pedro Rodrigues

Dench, Mirren, Sutherland... Veneza tem filmes da sua idade

Aquela espécie de "hooray for Netflix" de Jane Fonda, há dias, a querer dizer que ali há possibilidade para personagens no acto final das suas vidas, como o filme que a trouxe e a Robert Redford à 74.ª edição do Festival de Veneza, Our Souls at Night, abriu uma caixa de Pandora. Num curto espaço de tempo, Helen Mirren, 72 anos, com um tumor no cérebro, e Donald Sutherland, 82, com Alzheimer, já não conseguindo esquecer-se de se esquecer, partiram "on the road" de caravana para férias, uma última viagem americana, como a de Thelma e Louise; e a rainha Vitória, obesidade mórbida nos tempos finais de vida, enjoada com o protocolo, causou abanões na corte, se não mesmo no império, quando (história verídica) se encontrou com um "criado e ainda por cima indiano" - e ainda por cima muçulmano - que impôs como guia (uma versão espiritual e de ressonância anti-imperialista de Driving Miss Daisy). Eis The Leisure Seeker, de Paolo Virzi (concurso), e Victoria and Abdul, de Stephen Frears (fora de competição, e a motivar o Glory to the Filmmaker Award ao cineasta britânico).

Primeiro filme rodado em inglês pelo italiano Virzi, The Leisure Seeker não se esquece de nenhuma das piadas que o esquecimento pode facultar a um argumento - o espectador também não se esquece, de modo que é possível antecipar, com os diálogos, as reacções e os esgares, toda a retórica física dos actores. O filme utiliza Mirren e Sutherland exactamente como Ritesh Batra se abstinha de utilizar Fonda e Redford no tal filme Netflix: faz deles mimos de uma série de convenções (o que é elegante em Our Souls at Night é a distância maravilhada que cria, que se impõe a si próprio, para descobrir os actores em vez de apenas os utilizar).

Stephen Frears voltou às rainhas, depois de The Queen (2006), e Judi Dench, 82 anos, voltou a Vitória, vinte anos depois de Mrs. Brown (John Madden, 1997), filme que retratava a personagem no período de solidão após a morte do marido, quando desapareceu do espaço público e iniciou uma amizade - daquele tipo de relações onde cabe tudo - com um funcionário da casa real. A história que Frears conta em Victoria and Abdul refere-se a factos passados já na última década da vida da rainha, é verídica, ou "quase" - é assim que no genérico inicial o filme brinca com a sua verdade, da mesma maneira que Butch Cassidy and the Sundance Kid (George Roy Hill, 1969), que começava com um "Most of what follows is true". Foi tornada pública em 2010, altura da publicação dos diários de Abdul Karim (1863-1969).

Toda a correspondência entre a rainha e Abdul, que Vitória integrara na corte como amigo, secretário e líder espiritual, todos os documentos que exibiam marcas desse relacionamento, tinha sido apagados depois da morte da soberana, por ordem do filho, que se tornaria Eduardo VII. Abdul "desapareceria". Fazê-lo aparecer assim, torná-lo hoje personagem - é o actor indiano Ali Fazal que o interpreta -, será um gesto de ressonâncias políticas. Elas vibram para lá do vetusto formulário que Frears preenche, que tem preenchido de forma às vezes maquinal nos últimos dez anos da sua carreira. Isso desculpa o regresso ao "filme de rainhas", ele que no final dos anos 80 foi um retratista impiedoso, rugoso, da Inglaterra de Thatcher. Transforma Victoria and Abdul numa investida.

Frears brincou com isso, aliás, dizendo, em conferência de imprensa, que pensou "num filme que pudesse interessar a Donald Trump". Toda a dinâmica de Victoria and Abdul é a de utilizar a subversão como jogo, traço da personagem de Abdul ou da forma como Ali Fazal se aproxima dela: entre a inocência e a sedução do conquistador, este indiano e muçulmano destruiu fronteiras, ganhou espaço num mundo fechado, imperialista e racista. Se calhar Frears tem razão, este é o seu A Minha Bela Lavandaria (1985) de hoje: temos a Inglaterra, temos a Índia, como ele disse, só falta a homossexualidade.

Filme velho ou filme de velhos? Há uma geração, acusa-se alguém numa sala de conferências de imprensa em Veneza, que foi continuando a sua vida, utopias e decepções nos filmes de Robert Guédiguian. Para esses, La Villa (competição) leva-os a coçar a cabeça e a pensar que estão a contemplar um fim. Há quarenta anos que o cineasta de Marselha trabalha com a sua troupe, e realiza os filmes nesse espírito.

Em La Villa aí estão eles, os seus actores, Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin e Gérard Meylan. Interpretam três irmãos que tinham seguido caminhos diferentes e que se encontram devido à doença do pai, símbolo de um mundo operário e dos seus valores e ideologias que vai desaparecer. Que já acabou - há sinais na paisagem. (Ascaride, Darroussin e Meylan também se contemplam, também podem ver como eram - é com imagens de filmes anteriores de Guédiguian que o passado das personagens é mostrado).

A ausência do cinismo, a forma como se posiciona perante a actualidade (cinematográfica), o património que Guédiguian se comove a evocar, fazem de La Villa um OVNI no festival. Fiel a um mundo "obsoleto" (palavra do realizador), o filme não se separa dele. O cinema que pratica, as interacções que cria, a intencionalidade das palavras, dos gestos para participar do mundo e criar os seus símbolos podem também ser experimentados como obsoletos. Mas é um filme que teima em existir.

 

Texto de Vasco Câmara, em Veneza, para o "Público" de 4 de Setembro de 2017.

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