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Páginas de estórias e da História

Um blog sobre tudo e mais alguma coisa!

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O regresso do metal sonante dos britânicos Def Leppard

Setembro 03, 2017

Pedro Rodrigues

O disco parecia condenado por uma daquelas "maldições" que fazem dos militantes e consumidores de rock uma enorme legião de crentes. Num momento de clara ascensão na carreira, os rapazes de Sheffield sabiam da importância do momento: depois do êxito dos segundo e terceiro álbuns da banda, High'n' Dry (1981) e Pyromania (1983), ainda mais valiosos para a explosão comercial do grupo por terem conseguido fantásticos resultados no mercado norte-americano, era imperioso manter a cadência. Como não se mexe numa equipa ganhadora, os Def Leppard optaram por manter o produtor que lhes permitira o crescimento e essa assinalável conquista transatlântica, capaz de os projectar - durante algum tempo - em território yankee como "os novos Led Zeppelin".

Aconteceu o primeiro revés: Robert John "Mutt" Lange, um dos "comandantes sonoros" mais requisitados por esses dias, desistiu após as primeiras sessões, confessando a sua exaustão. Algo que o seu currículo mais recente - com produções para os Motors, Graham Parker, os Boomtown Rats, os Foreigner e os AC/DC, além dos próprio Leppard - permitia perfeitamente alegar.

Para o seu lugar foi chamado Jim Steinman, cujo palmarés brilhava, muito por conta de Bat Out of Hell, de Meatloaf. Só que as divergências quanto ao produto ficaram bem vincadas desde o primeiro momento: os músicos queriam manter e até aprofundar um híbrido entre o heavy metal que os lançara e alguns retoques mais pop que lhes permitiram o crescimento exponencial: já Steinman defendia um som mais "puro e duro". Resultado: depois de uma versão considerada ineficaz de Don't Shoot Shotgun (canção que apareceria no álbum mas com um embrulho completamente refeito), o norte-americano foi devolvido à procedência, tendo ainda de ouvir Joe Elliott, vocalista dos Def Leppard, atirar as culpas para um "equívoco": "Nós enganámo-nos - foi Todd Rundgren quem produziu Bat Out of Hell. Jim Steinman só o escreveu..."

Seguiu-se um esforço dos cinco músicos para tomarem directamente conta da ocorrência. Mais tarde, saber-se-ia que a maré não estava de feição mas o motivo principal para a renúncia a essa solução foi muito mais grave: a 31 de Dezembro de 1984, o baterista Rick Allen viu-se envolvido num acidente de viação que, com várias peripécias médicas pelo meio e uma infeção que poderia tê-lo matado, acabaria com a amputação do braço esquerdo.

Allen, com um longo período de recuperação pela frente e com um handicap que se julgava inultrapassável, quis desistir, libertando os parceiros para continuarem com outro homem a tomar conta das peles e dos pratos. Os outros preferiram esperar e acabaram por testemunhar uma espécie de "ressurreição" de Rick, para quem foi construído um kit electrónico de bateria, que lhe permitiu suprir a falta do braço. O acidentado músico voltaria em plena forma na edição de 1986 do festival Monsters of Rock, após uma apresentação emocionada de Elliott e perante uma longa ovação do público presente.

Por esta altura, já Lange tinha regressado ao lugar de produtor e chutado bem para cima a fasquia do adiado álbum, que implicou mais de três anos de gravações, além da passagem por estúdios na Irlanda (país em que os Leppard residiam então, por questões ligadas à carga fiscal), em França e na Holanda. Lange tinha lançado o desafio em termos categóricos: fazer do novo álbum do grupo uma versão "dura" do que Michael Jackson conseguira com Thriller, em que cada canção era um single potencial.

Apesar do grau de dificuldade inerente a esta meta, nem músicos nem produtor ficaram muito longe: em 12 canções, sete chegaram à edição autónoma. A primeira, Animal, foi publicada em Setembro de 1987 e, depois de Women, Pour Some Sugar on Me (um registo de última hora), Hysteria, Armageddon ItLove Bites, a última, Rocket, foi editada em Janeiro de 1989.

 

Hysteria, título sugerido por Rick Allen em alusão a toda a exposição mediática que se seguiu ao seu acidente, vendeu nada menos do que 25 milhões de cópias em todo o mundo, sendo quase metade desse número requisitada pelos fãs norte-americanos. No capítulo técnico, o álbum tornou-se um caso especial, ao conseguir concentrar, na edição de vinil, 62 minutos de música, quando, em média, os discos não ultrapassavam os 45-48 minutos de duração útil.

Permitiu ainda declarar, à época, um vencedor numa das mais aguerridas batalhas de adeptos da história do rock britânico: quem já tinha assistido (e, talvez, tomado partido) ao "duelo" entre os Beatles e os Rolling Stones não adivinhava ainda o "confronto" vindouro entre Blur e Oasis, teve direito a um fenómeno semelhante entre os torcedores dos Leppard e os que preferiam os Iron Maiden.

Uns e outros foram os maiores destaques de um movimento lançado na viragem da década de 1970 para a seguinte: a chamada New Wave of British Heavy Metal. Com alguns dos maiores nomes do rock dito "metálico" em crise de forma ou em fase de desagregação de bandas, coube aos mais novos emergir.

Quem teve oportunidade de assistir - como aconteceu com o autor deste texto - ao festival de Reading de 1980, rapidamente compreendeu que se tratava de um caso sério: a par de alguns consagrados do hard rock (Gillan, Whitesnake, UFO, Ozzy Osbourne, além do outsider Rory Gallagher), era essa "vaga" que dava cartas no elenco: Def Leppard, Iron Maiden, Samson, White Spirit, Tygers of Pan Tang e Girl por lá passaram, o que significa que, entre os mais representativos, só faltaram os Saxon, as Girlschool, os Diamond Head e os "padrinhos" Motorhead.

Iron Maiden (no sábado, 23 de Agosto) e Def Leppard (na noite seguinte) suplantaram, em euforia e aplausos, os veteranos cabeças-de-cartaz. De resto, a rivalidade entre os moços de Londres (Maiden) e os de Sheffield já vinha de trás - depois de períodos em que financiaram as primeiras edições, ambos tinham chegado ao contrato com multinacionais com poucos meses de intervalo, com os Leppard a assinar em Agosto de 1979 e os Maiden a seguirem o mesmo caminho (em editora rival) em Dezembro desse ano.

Se Hysteria é, até hoje, o álbum mais popular dos Leppard, acabou também por marcar o adeus a um dos seus fundadores - o guitarrista e principal compositor Steve Clark morreria, de complicações respiratórias alegadamente provocadas por excessos com álcool e morfina. Ainda assim, algumas das suas canções viriam a ser incluídas em Adrenalize (1992). Mas depressa se percebeu que o "espírito da coisa" não voltaria a ser o mesmo.

Agora, 30 anos volvidos, uma edição que inclui o álbum original, dois CD lados B e remisturas, mais dois com a gravação integral de um espectáculo em Denver, na digressão de 1988, bem como dois DVD, que incluem vídeos, passagens pela TV e imagens de bastidores, vai matar saudades a muita gente que estava à espera da oportunidade para revitalizar o metal sonante dos Def Leppard. Que, à atenção dos interessados, regressam neste mês aos palcos e às digressões - e começam pelo Brasil...

 

Hysteria (5cd + 2 dvd) - Def Leppard

Ed. Universal

PVP: 84,99 euros

 

Texto de João Gobern para o "Diário de Notícias" de 3 de Setembro de 2017.

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