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Páginas de estórias e da História

Um blog sobre tudo e mais alguma coisa!

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"Stop Making Sense", de Jonathan Demme

Setembro 02, 2017

Pedro Rodrigues

A câmara vem dos bastidores e traz um homem de sapatos brancos até ao microfone: é David Byrne. Veste um fato cinza extra-size. Pousa um leitor de cassetes no chão: "Hi, I got a tape I want to play." Está sozinho num palco que será montado à medida do concerto que nos espera e, guitarra acústica a tiracolo, ataca a solo 'Psycho Killer', que foi um dos primeiros êxitos dos nova-iorquinos Talking Heads. O resto do grupo começa depois a entrar em cena, elemento a elemento, às vezes aos pares, nas canções seguintes: primeiro, a baixista Tina Weymouth, de seguida alguém leva para o palco a bateria de Chris Frantz (e o baterista vem com ela), aparece o guitarrista Jerry Harrison (que tal como Tina oscila entre cordas e teclas) e com este o resto da comitiva, Bernie Worrell nos sintetizadores, Steve Scales na percussão, Alex Weir, outro guitarrista (que vinha dos The Brothers Johnson), e as vocalistas de apoio, Ednah Holt e Lynn Mabry. São nove ao todo, vemos o espectáculo a ganhar forma, e este aspecto não é irrelevante, porque a estrutura do filme que nos traz a estas páginas ergue-se com esse espectáculo 'em construção'. Em Dezembro de 1983, depois de um "ideal party album" (assim chamou a "Rolling Stone" a "Speaking in Tongues"), o quinto de originais dos Talking Heads, em que eles abriram ainda mais o seu leque sonoro à percussão, ao funk e à dança, Jonathan Demme fixou a banda em película Technicolor, durante três performances extraordinárias no Hollywood Pantages Theatre de Los Angeles. Ao filme, chamou-lhe "Stop Making Sense", a partir de um verso de 'Girlfriend Is Better', canção do citado álbum. Vamos poder descobri-lo em todo o esplendor nas salas portuguesas a partir de 5.ª Feira, seguindo-se, a 7 de Setembro, uma edição em DVD e, como alternativa, em acesso vídeo on demand (na Cinema Bold).

Para lá de toda a felicidade e energia eufórica que ainda hoje transmite - como se 33 anos não tivessem passado entretanto -, "Stop Making Sense" é um marco histórico do documentário que abriu um novo capítulo na representação do filme-concerto. De facto, estamos aqui no extremo oposto do cinema directo que, reverente e subalterno face ao que tinha à frente da câmara (e fazendo suceder com frequência a canção à entrevista), assim registara em película o rock ao vivo até então, tal como o fizeram D. A. Pennebaker em "Monterey Pop", Michael Wadleigh em "Woodstock", ou Scorsese, poucos anos antes (em 1978), no concerto final dos The Band em "The Last Waltz" (uma das excepções é seguramente o resultado do encontro de Gondard com os The Rolling Stones em "Sympathy for the Devil", mas o caso aqui é diferente porque a banda de Mick Jagger, como todos se recordam, está entre as quatro paredes de um estúdio; o mesmo sucede em "Pink Floyd: Live at Pompeii", de Adrian Maben, filme-concerto sem público e deliberadamente preparado para a câmara, com os Floyd sozinhos no anfiteatro romano).

Em "Stop Making Sense", por outro lado, a aliança entre os concertos que estão a acontecer e a câmara que os filma é de tal modo intensa e imersiva (o filme, de resto, foi produzido pelos Talking Heads com 800 mil dólares, soma nada frugal para um trabalho deste género nesta época) que tudo nos conduz a uma ideia de 'concerto encenado' e de proposta estética completamente alheia a promoções de show biz, como se o Pantages Theatre fosse (e foi, de facto), mais do que uma sala de espectáculos cheia de gente, um estúdio de cinema, em que todos estão sintonizados no mesmo objectivo. É também preciso salientar que, enquanto produto do seu tempo, "Stop Making Sense" beneficia de uma tendência - e muito graças a bandas como os Talking Heads - em que a pop começa a ganhar consciência do seu potencial performativo em palco (luzes elaboradas, coreografias, etc.), um aspecto a que nos habituámos entretanto nas megadigressões de artistas como Madonna ou os U2, que também a este filme são devedores. David Byrne, numa declaração da altura, esclarece este ponto: "Convenci-me de que o filme deveria ser realizado por alguém com experiência na ficção. Sabia que Demme veria as coisas sob uma perspectiva diferente, concebendo os artistas como personagens e o show como uma história, com um princípio e um fim."

Há um outro aspecto que impressionou bastante após a revisão do filme nesta cópia remasterizada e que tem que ver com o trabalho de som, que é sublime. Também aqui, há um studio quality com uma definição e uma clareza que tornam a experiência de "Stop Making Sense" muito mais intensa. Aquilo que ouvimos é, de facto, o resultado do sinal que chegou à mesa de mistura do Pantages Theatre, mas todo esse resultado foi filtrado e remisturado como se de um estúdio viesse, deixando a reacção do público quase inaudível - e o filme ganha com essa ilusão, esse efeito de estranheza (que Scorsese também usou no seu "Shine a Light", com os Rolling Stones, em 2008). Demme mostra capacidades notáveis. Nenhuma canção é filmada da mesma maneira e o espectador sente-se mais próximo de estar ao lado da banda que no lugar da audiência. Começa tudo com Byrne a solo, em plano de pormenor e em grande plano, e depois o espectro vai-se abrindo, num contágio de folia em crescendo até às canções finais, 'Girlfriend Is Better' e 'Take Me To The River', até ao delírio efusivo da última, 'Crosseyed and Painless' (do álbum "Remain in Light"), ponto culminante em que a câmara deixa em definitivo entrar a plateia (e o som dessa plateia) no filme, e até se mete dentro dela. Esta gradação revela-se emocionante e, no fundo, talvez esteja aqui a "história com princípio e um fim" a que Byrne se referia.

Jonathan Demme voltaria ao rock e ao filme-concerto muitas vezes mais, dos Pretenders a Neil Young, e já gravemente doente foi de novo extraordinário quando registou a "20/20 Experience World Tour" de Justin Timberlake em "Justin Timberlake - The Tennessee Kids", a sua derradeira longa-metragem (o cineasta morreu em Abril deste ano). Pudemos vê-la no ano passado, no Festival de Toronto, num daqueles ecrãs IMAX gigantescos que só existem no outro lado do Atlântico - experiência irrepetível, pois tratou-se de uma produção da Netflix (para o ecrã pequeno). No fundo, o filme sobre Timberlake foi o culminar da perfeição e da técnica lançadas em "Stop Making Sense": um filme seminal sobre o poder dos artifícios, com uma invulgar alquimia.

 

Texto de Francisco Ferreira para a "E", a revista do "Expresso", de 2 de Setembro de 2017.

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