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Páginas de estórias e da História

Um blog sobre tudo e mais alguma coisa!

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Nos 80 anos de Pinto Balsemão

Setembro 01, 2017

Pedro Rodrigues

Nasceu em berço de ouro, no seio de uma família enquistada na ditadura, faz hoje 80 anos. Teve sempre a fama (e proveito) de playboy. Mas tornou-se, pela sua própria obra, uma das personalidades portuguesas mais influentes do século XX. "Se o mundo se divide em actores e espectadores, Francisco Balsemão foi um actor, quando tudo o empurrava para a confortável posição de espectador", escreve Joaquim Vieira no epílogo da biografia não autorizada lançada esta semana pela editora Planeta.

O subtítulo do livro serve de epitáfio ao biografado - O patrão dos media que foi primeiro-ministro - e centra de imediato o foco naquilo que é a grande obra de Francisco Pinto Balsemão: o império criado a partir do Expresso e que se tornou "uma grande nau" com a SIC. Mas antes de ser patrão, e antes mesmo do 25 de Abril, Balsemão surge como jornalista lúcido, com uma visão muito clara da importância do jornalismo para a democratização da sociedade, a par da abertura aos partidos políticos.

Desde que recebeu em herança, aos 27 anos, por morte do pai, uma quota do Diário Popular que Balsemão começou a revolucionar o título de que se tornou director. Em 1971 edita Informar ou Depender?, um livro sobre o estado da comunicação e do jornalismo no mundo e em Portugal, no qual apoia o projecto de Lei de Imprensa que apresentara com Francisco Sá Carneiro em Abril de 1970, na Assembleia Nacional (AN).

"A grande inovação do documento de Balsemão e Sá Carneiro consistia na extinção da censura prévia, excepto para notícias de natureza militar enquanto durasse a guerra em África. Também se preconizava a livre formação de empresas de comunicação, a liberdade de recolha e difusão de informação e o fim do julgamento dos crimes de liberdade de imprensa por tribunais especiais. Incentivava-se ainda a formação de conselhos de redacção e elaboração de um código deontológico dos jornalistas", escreve Joaquim Vieira.

Balsemão tinha chegado à AN com a anuência do próprio Marcello Caetano, numa lista de 20 nomes para as eleições de 1969, encomendada para passar a imagem de que havia alguma oposição ao regime no Parlamento. Claro que o facto de o jovem licenciado em Direito ser administrador do jornal mais influente à época foi decisivo. A campanha desta lista dita renovadora - com Francisco Sá Carneiro, Miller Guerra, José Pedro Pinto Leite - foi bem-sucedida, elegeu 19 dos 20 nomes e cedo foi baptizada de "ala liberal". Sentados ao lado um do outro, os Franciscos - Balsemão e Sá Carneiro - identificam-se de imediato. A liberdade de expressão e de imprensa era um dos pontos em comum. A questão colonial e a abertura aos partidos políticos eram outras em que os dois deputados acabariam por apresentar propostas legislativas conjuntas, sempre chumbadas. E que os puseram em evidente rota de colisão com o marcelismo.

"Foi já em fase de aberto conflito político entre os liberais e o presidente do Conselho que surgiu, na Primavera de 1971, uma generosa proposta de compra do Diário Popular pelo Banco Borges & Irmão", encabeçado por uma família predominante na economia e próxima da ditadura. O jornal acabou por ser vendido e Balsemão começou a preparar a sua nova aventura: o Expresso, que veria a luz do dia a 6 de Janeiro de 1973.

 

É na fase final da preparação do Expresso que surge o jovem licenciado em Direito Marcelo Rebelo de Sousa, filho do ministro Baltazar, que se tornará um compagnon de route de Balsemão, mas ao mesmo tempo uma permanente pedra no seu sapato. Marcelo obtinha informação privilegiada de dentro do regime e utilizá-la-ia profusamente nas suas análises, nas notícias e na secção "Gente", de que se tornou editor.

Desde o arranque do Expresso que as relações com a censura foram apertando, mas o pico foi atingido com a edição de 2 de Junho de 1973. Balsemão deixara Marcelo a fechar o jornal e este optou por ignorar os 54 cortes da censura, publicando tudo na íntegra. "Tratou-se de uma edição incendiária" e que Rebelo de Sousa defendeu dizendo: "Foi uma opção!". A consequência foi a exigência de prova de página durante dois meses, o que significava que ao Exame Prévio já não iam os artigos soltos, mas em página inteira, já maquetada. Isso implicava um trabalho brutal a cada corte e poderia mesmo inviabilizar o jornal, por atrasar o fecho da edição e poder pôr em causa a sua distribuição e venda. Não foi a única vez que aconteceu.

O 25 de Abril salva o Expresso da falência, escreverá mais tarde Balsemão. E coloca o jornal no epicentro da mudança política. "Pelo Expresso, e pela mão do seu proprietário, passa a grande corrente da transição para a democracia", escreve Vieira. No dia seguinte, Sá Carneiro surge no Expresso e avança com a ideia da criação de um partido "à direita do PS mas sem conotações direitistas".

O semanário "acaba por ser a barriga de aluguer da formação em gestação, como explicará Marcelo Rebelo de Sousa, falando desses 'frenéticos' dias iniciais de Maio. 'No Expresso fazia-se, naqueles momentos, mais política partidária do que jornalismo'". Ali nasceu o Partido Popular Democrático (PPD, mais tarde rebaptizado PSD). Em 1975, Balsemão e Marcelo são eleitos para a Assembleia Constituinte, mas depois ficam fora das listas para as legislativas de 1976, acusados de estarem entre os críticos de Sá Carneiro, embora o neguem. Os dois continuam a ser a "espinha dorsal do conteúdo do Expresso", conta a Vieira Vicente Jorge Silva: "O Marcelo e o Balsemão tinham as cachas porque sacavam aquilo nos mentideiros dos bastidores políticos. Era uma coisa feita assim, o resto era verbo de encher".

Apesar da proximidade entre ambos e de Balsemão se divertir com as cenas loucas de Rebelo de Sousa, Marcelo estava "constantemente a morder na canela de Balsemão". O cúmulo aconteceu em Agosto de 1978, quando no meio de uma das notas da secção "Gente", escrita por Marcelo, aparece a célebre frase: "O Balsemão é lelé da cuca". O incidente resultara - narra Vicente Jorge Silva - de uma aposta com a Margarida Salema, "com quem tinha um namoro". Balsemão ficou furioso, mas não o despede. Marcelo pediu desculpas e disse-lhe que o via "como um pai". As marcas são profundas.

Ainda assim, é a Marcelo que Balsemão deixa a direcção do Expresso quando vai para o Governo, primeiro como ministro de Estado adjunto do primeiro-ministro, em 1980, e no ano seguinte como primeiro-ministro, após a morte de Sá Carneiro. "Esta decisão acaba por ser terrível: Marcelo publica coisas que não agradam, faz críticas e acaba por surgir uma instabilidade dentro do Governo", conta Vieira ao Sol.

Quando Balsemão se demite de primeiro-ministro e a AD volta a ganhar eleições, o proprietário do Expresso chama Marcelo para o novo Governo. "O jornal andava a matar o pai, no sentido mais freudiano da palavra. Uma da razões por que [o] chamei para o Governo foi para o afastar do jornal", disse Balsemão numa entrevista a Clara Ferreira Alves.

Mas cedo o primeiro-ministro se apercebe de que era ele a origem de muitas fugas de informação. Balsemão acaba por convidar Marcelo a demitir-se, mas é este quem escolhe o timing: "Lamentar-se-á Balsemão acerca do gesto de saída do seu irrequieto ministro: 'Apresentou a demissão quatro dias antes das autárquicas, com a promessa de nada revelar até às eleições, mas no próprio dia ou no dia seguinte a notícia estava no Expresso", conta Vieira. Quando sai do Governo, Balsemão fez uma lista de três pessoas proibidas de colaborar no semanário. Uma era Marcelo.

 

O mais ambicioso objectivo para onde Balsemão há muito apontava era a criação de uma estação privada de televisão. Vieira revela que desde 1986 que os documentos internos da Sojornal abordavam tal projecto. Nesse ano comprou uma máquina de impressão, adquire A Capital e cria a holding Controljornal, para gerir as participações que vai adquirindo. No anos seguintes o grupo cresce: integra revistas, adquire uma das maiores rotativas do país, entra na distribuidora VASP, cria empresas para importar papel, para o mercado da publicidade e na área do vídeo. Dirá Balsemão: "Em 87 comecei a insistir com a televisão privada". Bastava só aguardar que o Governo abrisse concurso para candidaturas a canais privados. A favor do projecto, sacrificou a política activa. E perdeu três oportunidades de se candidatar à Presidência da República.

Em 1990, cria a Impresa e concorre a um dos canais privados de televisão cujo concurso abre nesse ano, criando para tal a empresa Sociedade Independente de Comunicação Social, SA (SIC). "O principal obstáculo à criação de raiz de uma estação de TV em Portugal era de origem financeira", explica Joaquim Vieira, que revela como Balsemão recorreu a um testa-de-ferro para contornar a proibição legal de investidores estrangeiros deterem mais de 10% de empresas de comunicação social.

Desenhado o modelo, contratados os principais rostos - Emídio Rangel acumula de início as direcções de programas e de informação -, a SIC vai para o ar a 6 de Outubro de 1992. Mas a afirmação junto do público só chegou ao fim de três anos e muito dinheiro pedido aos accionistas. Escreve Vieira: "A fórmula com que o canal privado triunfou, ultrapassando a RTP em audiências a partir de 1995, foi aquela que a estação de serviço público já antes praticava: Telejornal às 20 horas, seguido de telenovela da Globo e depois programa de entretenimento".

Com a SIC de vento em popa, Balsemão vai juntando outros títulos ao seu portfolio, como a Caras (1995), o Blitz (1994) ou a Visão (1993). Pelo caminho teve de socorrer-se de vários empréstimos bancários e operações financeiras. No início do século XXI, a Impresa estava nas mãos dos bancos. "Grande nau, grande tormenta", escreve Vieira. Os anos seguintes são ainda mais difíceis: o desafio do digital e da gratuitidade inerente, a quebra das receitas da publicidade e a dependência do financiamento bancário - sobretudo face ao BES, que acabaria por ruir - arrastam a nau para mares tumultuosos de onde ainda não conseguiu sair, como mostra a ameaça de encerramento das revistas do grupo até ao final do ano. Conclui o biógrafo: "No fim, Balsemão deixa aos herdeiros um império com pés de barro, um grupo que continua sem capitais próprios e que lhes poderá acarretar, no mínimo, enormes dores de cabeça."

 

Texto de Leonete Botelho para o "PÚBLICO" de 1 de Setembro de 2017.

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Setembro 01, 2017

Pedro Rodrigues

Depois de quase dois meses a tentar criar um blog, apagando e criando, e de voltar a apagar e a criar outra vez, decidi abrir este "Páginas de estórias e da História". Por aqui irão passar os mais variados assuntos, desde a actualidade a pequenas estórias do quotidiano, o qual espero que seja do vosso agrado! :)

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